21.3.09
Desenterrando
Já estamos quase no fim de março, e o que eu fiz até agora? Nada. Quer dizer, um pouco mais que nada. Mas sempre é bom generalizar. Ou não. Então o tempo vai passando, e a gente vai correndo. Correndo cada vez mais rápido em direção à morte, por mais clichê que isso possa parecer, ou ser. Alguns chegam logo, como é o caso do Julião. Outros não. Por enquanto. É como se a vida fosse um signo: um só existe delimitado por outro. Mas eu não estou apta a discorrer sobre o que eu não entendo: vida, morte e Linguística.
28.2.09
É para lá que eu vou
Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.
À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou.
Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. E para lá que eu vou.
Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra “tertúlia” e não sei aonde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio.
Não sei sobre o que estou falando. Estou falando de nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.
É para o meu pobre nome que vou.
E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.
Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.
À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou.
Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. E para lá que eu vou.
Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra “tertúlia” e não sei aonde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio.
Não sei sobre o que estou falando. Estou falando de nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.
É para o meu pobre nome que vou.
E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.
Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.
Clarice Lispector
in “Onde estivestes de noite” - 7ª Ed.
Ed. Francisco Alves - Rio de Janeiro - 1994
in “Onde estivestes de noite” - 7ª Ed.
Ed. Francisco Alves - Rio de Janeiro - 1994
19.2.09
Documentação
Platonismos, petrarquismos, camonismos.
Usando uma palavra grega "hipopótamo" acima das concepções de verdade museológicas de opinião e epistemopoucomeimporta. Explorar, conservar, proteger, moça, onde é a saída?
Usando uma palavra grega "hipopótamo" acima das concepções de verdade museológicas de opinião e epistemopoucomeimporta. Explorar, conservar, proteger, moça, onde é a saída?
4.2.09
euri/
O estudante perfeito, que não desconfiava que era um chato, pensou: qual era a palavra mais difícil que existia? Qual era? Uma que significava adornos, enfeites, atavios? Ah, sim, gregotins. Decorou a palavra para escrevê-la na próxima prova.
(Clarice Lispector, "Onde estivestes de noite")
28.1.09
Misantropia natural
Os ossinhos miúdos tirintam nas mãos, penugem cinzenta, soro salgado de lágrimas e vida que escorre e escapa da agulha, subcutânea salvação. Marca do asfalto cru e inchado saltando da órbita, fundo ao globo, sentidos cortados, queimados curtos sonoros apenas. Fino e agudo clama por tudo ao nada em trépido frêmito. Pureza de alma aquecido por fim ao palpitar do coração ressoa ressona em cegos sonhos.
24.1.09
Bur-legis-lar ou O Processo
Segundo-consta
Segundo-consta
Olhos já não choram
Segundo-consta
Grito não é mudo
Segundo-consta
somoslivres, somoslivros-carta-arquivamento
Segundo-consta
Temosletra-leite-leito
Segundo-consta
Todos-constam.
Artigo n+2
Parágrafo n-1+7n²
Item n!p-2^k
et coetera
et coetera etc.
Segundo-consta
Olhos já não choram
Segundo-consta
Grito não é mudo
Segundo-consta
somoslivres, somoslivros-carta-arquivamento
Segundo-consta
Temosletra-leite-leito
Segundo-consta
Todos-constam.
alo vosse
tenço. hagora eu tenho hum meis pra iscrever de tudu "herrado". reforma ortografika, aham. ah e si eu fikar xata e pedanti, favor me ispancaren, beigos.
modei o nome do blogui. ben mas loki que "existencialirismo".
(nota: pará de moodar o nomi do blogui há cada sês mezes.)
modei o nome do blogui. ben mas loki que "existencialirismo".
(nota: pará de moodar o nomi do blogui há cada sês mezes.)
17.1.09
Blindagem
Você está muito bem agora que blindou seu carro. Vejo como você dirije com tranquilidade e firmeza, respeita as faixas, compreende os outros motoristas em suas decisões imediatas. Você para suavemente. Devo te dizer que você está sereno como se estivesse em casa, oferecendo um jantar às pessoas de sua confiança. Você está ótimo! Cara, você realmente está em seu elemento! Esse ar condicionado... esse rádio vazando bossa nova... Você está tranquilíssimo! Parabéns! Não posso deixar de notar que você está assim... e te dizer, é claro! Puxa, como você está bem dentro dessa blindagem!
(Fernando Bonassi, São Paulo/Brasil)
16.1.09
13.1.09
109 kcal
Esticou uma perna, depois outra. Virou-se de bruços. Tentou, não conseguiu. Levantou-se. Desceu até a cozinha. Passou manteiga na cream-cracker, muita manteiga. Gostava quando a matéria amarelada e gordurenta se esvaia pelos furinhos da bolacha.
11.1.09
6.1.09
Oi-e
Então que acabou a segunda fase e nada de vestibular certamente por um ano e espero que por mais alguns. A sensação de ter terminado as provas deve ser melhor que a de passar *-*
Anyway, eu 'tô na vibe da mendicância: alguém quer me dar óculos iguais aos da Madonna na Sticky & Sweet e da Lolita no cartaz do filme do Kubrick? :D Só oito dólares.
Anyway, eu 'tô na vibe da mendicância: alguém quer me dar óculos iguais aos da Madonna na Sticky & Sweet e da Lolita no cartaz do filme do Kubrick? :D Só oito dólares.
27.12.08
24.12.08
No mármore de tua bunda
No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio.
Agora que nos separamos, minha morte já não me pertence.
Tu a levaste contigo.
Carlos Drummond de Andrade, Amor Natural
21.12.08
Give it up, São Paulo!
NUNCA uma espera de quatro anos valeu tanto a pena (se cabe aqui uma piada-de-gente-idiota, valeu a galinha toda, sem qualquer referência).
19.12.08
18.12.08
UNIFESP 2009
Quando uma faculdade faz um vestibular cujo tema é a morte da Dercy, você sabe que ela é séria!
14.12.08
13.12.08
Boneca fechada
"Já se dizia no meu
tempo: todo bandiguei
que se preze tem seu
gaydacu furolho."
"Se joga, pintosa.
Põe rosa!"
(Lema Drag)
tempo: todo bandiguei
que se preze tem seu
gaydacu furolho."
"Se joga, pintosa.
Põe rosa!"
(Lema Drag)
Num tempo em que Cher ainda tinha cabelo, a buatchy Moon Spaikle era lotada de estrelas. Sheila-Shoulder, o strass Swarowiski da casa, tinha clientes fixos que a presenteavam com toda sorte de brilhos.
A mona era tudo o que uma trava queria ser: suas unhas de silicone-gel eram um escândalo-bee!-garras-de-pavão; as madeixas castanho-dourado-balaiage-surf-hair recebiam escovas hidratantes de manteiga de karité, chocolate e morango semanalmente; tinha olhos verde-esmeralda, herança dinamarquesa da avó, realçados pelos cílios postiços compridéééérrimos.
Helly Colêra amava aquela gata malhada. Conheceram-se quando Sheylinha era Robson e não passava de uma bichinha-pão-com-ovo. Colêra era um gatão meia-idade, bombadão e depilado, barbie oleosa das baladas GLBT, dançava furiosamente com seus flags ti-di. E tudo destacado pela reluzente corrente-coleira, origem da alcunha.
Porém a felicidade desse colorido casal de Malhação versão purpurina era perturbada pela despeita de uma beesha invejosa: a malévola Janete Poquete - "'Boquete'? Não, 'Porquete'!"
Janete Poquete era traíra: queria todo aquele brilho da boneca mais famosa, nada menos que isso. A exu-berância das curvas barbie-fairy-thopia inundavam os olhos da rival de cobiça. A mona invejosa praguejava, achava que era um puta-mundo-injusto-meu!: a outra tinha "money, fame, glam success", enquanto ela era uma gata borralheira naquela casa de drag.
Mas Janete não era passiva-uepa! - corria atrás do prejuízo - era uma quase-mulher guerreira. Numa tarde, jogada em seu divã rosa, usando o baby-doll comido pelas traças e calçando meias frouxas, ideiou um diabolicismo que poria fim naquele martírio: uma cartomante despacharia um trabalhinho contra aquela barbie-falsa, coisinha pouco. Levantou, deu um tapa na maquilagem e foi procurar uma colega de longa data que daria um jeito nesse puta-mundo-injusto-meu!
Nos confins de Guaianazes, Mãe Abigail, poderosíssima baiana, fazia de tudo: desde quiromancia, passando por leitura de runas, borra de café, tarot de Marselha, búzios, até manicure e pedicure.
Janete estava disposta a fazer daquele despacho um investimento, investimento num fundo (e que fundo!) de renda fixa, investindo para colher os juros depois.
O trabalho faz o cabelo da mocréia cair todo. Bibi disse ser da boa. Só umas mechas do cabelo e o scarpin do figurino.
Do cabelo não se tinha. Janete Poquete apoderou-se dos restos da depilação íntima de Sheyla. O trabalho fica até mais forte assim. Farofa de crista de galo regada a óleo de dendê socada dentro do sapato. Despacho feito, afastou-se rindo o riso mais maligno.
Sheylinha boneca, entretanto, fechava o corpo todo dia. Clientes feiticeiros abriam-lhe a alma e lhe fechavam o corpo. Mas nunca que trabalho do tipo pegava na bee!
O duelo foi frente-a-frente; muitas unhas e cabelos, chutes, pontapés, purpurina e estampa de oncinha. Porquete - "'Boquete'? Não, 'Poquete'!" - sagaz tirou da bag-Louis-Vitton-Vinte-e-Cinco o outro sapato do par-de-show. Cravou o salto do pescoço de Sheyla Shoulder, aqui, onde a carne é mais macia; um jato de sangue escapou-lhe a 50 joules numa inclinação de 63,5 graus. O sangue reluzia prata brilhoso-carnavalesco. Minha avó já me dizia: "Silêncio é morte de puta.". O mundo se calou. E se brilhou em purpurina.
------------------
Trabalho pra Carla. Supostamente um conto Guimarães-Rosa-Style. Dinha, Aline, Damaris e eu.
(Nunca duvide da criatividade da Damaris. E da minha veia trágica.)
Assinar:
Postagens (Atom)

