"Meu pai"? Até onde eu sei, não escolhi qual espermatozóide carregaria metade de mim. Não escolhi nem pai, nem mãe. Colocar "seu pai" numa conversa não é a melhor maneira de falar sobre qualquer coisa. Tudo não pode convergir para o assunto "seu pai".
Não jogue nas minhas costas a responsabilidade por cada molécula de ar que ele respira. Mais uma vez: eu não escolhi meu pai. Não tenho culpa pelo que ele faz (ou não faz, melhor).
Eu não escolhi o seu marido também.
Não sou eu que errei uma vez e pretendo errar tantas outras vezes possíveis.
Posso ter escolhido tantas outras coisas certas e erradas. Mas não escolhi meu pai. Sem que haja qualquer valor afetivo em "pai" aqui escrito.
16.12.09
10.12.09
Cada qual com sua Quimera
Sob um grande céu cinzento, numa grande planície poeirenta, sem caminhos, sem gramados, sem uma urtiga, encontrei vários homens que andavam curvados.
Cada um deles carregava nas costas uma enorme Quimera1, tão pesada quanto um saco de farinha ou de carvão, ou os apetrechos de um soldado da infantaria romana.
Mas a monstruosa besta não era um peso inerte; pelo contrário, envolvia e oprimia o homem com seus músculos elásticos e possantes; grampeava-se com suas duas vastas garras no peito de sua montaria; e sua cabeça fabulosa sobressaía acima da fronte do homem, como um daqueles capacetes horríveis com os quais os antigos guerreiros esperavam acirrar o terror inimigo.
Interroguei um desses homens, e perguntei-lhe aonde iam assim. Respondeu-me que de nada sabia, nem ele, nem os outros, mas que evidentemente iam a algum lugar, já que eram levados por uma invencível necessidade de andar.
Coisa curiosa de se notar: nenhum dos viajantes parecia irritado com a besta feroz pendurada em seu pescoço e colada em suas costas; dir-se-ia que a considerava como fazendo parte de si mesmo. Todos esses rostos cansados e sérios não demonstravam desespero; sob o céu, com os pés mergulhados na poeira de um solo tão desolado quanto este céu, eles caminhavam com fisionomia resignada daqueles que estão condenados a ter sempre esperança.
E o cortejo passou a meu lado e afundou na atmosfera do horizonte, no lugar em que a superfície arredondada do planeta se esquiva à curiosidade do olhar humano.
E, durante alguns instantes, teimei em querer compreender esse mistério; mas em seguida a irresistível indiferença se abateu sobre mim, e me deixou mais duramente oprimido do que eles próprios por suas esmagadoras Quimeras.
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BAUDELAIRE, Charles. "Cada qual com sua Quimera" in: Pequenos Poemas em Prosa (O Spleen de Paris). São Paulo: Hedra, 2009. p. 47
Cada um deles carregava nas costas uma enorme Quimera1, tão pesada quanto um saco de farinha ou de carvão, ou os apetrechos de um soldado da infantaria romana.
Mas a monstruosa besta não era um peso inerte; pelo contrário, envolvia e oprimia o homem com seus músculos elásticos e possantes; grampeava-se com suas duas vastas garras no peito de sua montaria; e sua cabeça fabulosa sobressaía acima da fronte do homem, como um daqueles capacetes horríveis com os quais os antigos guerreiros esperavam acirrar o terror inimigo.
Interroguei um desses homens, e perguntei-lhe aonde iam assim. Respondeu-me que de nada sabia, nem ele, nem os outros, mas que evidentemente iam a algum lugar, já que eram levados por uma invencível necessidade de andar.
Coisa curiosa de se notar: nenhum dos viajantes parecia irritado com a besta feroz pendurada em seu pescoço e colada em suas costas; dir-se-ia que a considerava como fazendo parte de si mesmo. Todos esses rostos cansados e sérios não demonstravam desespero; sob o céu, com os pés mergulhados na poeira de um solo tão desolado quanto este céu, eles caminhavam com fisionomia resignada daqueles que estão condenados a ter sempre esperança.
E o cortejo passou a meu lado e afundou na atmosfera do horizonte, no lugar em que a superfície arredondada do planeta se esquiva à curiosidade do olhar humano.
E, durante alguns instantes, teimei em querer compreender esse mistério; mas em seguida a irresistível indiferença se abateu sobre mim, e me deixou mais duramente oprimido do que eles próprios por suas esmagadoras Quimeras.
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BAUDELAIRE, Charles. "Cada qual com sua Quimera" in: Pequenos Poemas em Prosa (O Spleen de Paris). São Paulo: Hedra, 2009. p. 47
27.11.09
XIX
Se eu soubesse
Teu nome verdadeiro
Te tomaria
Úmida, tênue
E então descansarias.
Se sussurrares
Teu nome secreto
Nos meus caminhos
Entre a vida e o sono
Te prometo, morte,
A vida de um poeta. A minha:
Palavras vivas, fogo, fonte.
Se me tocares,
Amantíssima, branda
Como fui tocada pelos homens
Ao invés de Morte
Te chamo Poesia
Fogo, Fonte, Palavra viva
Sorte.
Teu nome verdadeiro
Te tomaria
Úmida, tênue
E então descansarias.
Se sussurrares
Teu nome secreto
Nos meus caminhos
Entre a vida e o sono
Te prometo, morte,
A vida de um poeta. A minha:
Palavras vivas, fogo, fonte.
Se me tocares,
Amantíssima, branda
Como fui tocada pelos homens
Ao invés de Morte
Te chamo Poesia
Fogo, Fonte, Palavra viva
Sorte.
(Hilda Hilst. Da morte. Odes mínimas.)
12.11.09
Descrição
"É a sazão outonal, em meio ao carnaval da efêmera duração. Inflama-se o rubor das rosas, a tez de sangue vivo das flores adquire maravilhosa cintilação tísica."
A fome, Knut Hamsun. Trad: Carlos Drummond de Andrade.
10.11.09
Costume makes the clown
And I don't always smell like strawberries and cream
But look at how
I'm taking the make-up off my face
Before I forget who I am now
I'm not here to let you down
But the costume makes the clown
It's just life's anatomy
Don't be so hard
Don't be so hard on this
It's your turn now
Your turn now...
To cheat on me
Shakira - Costume Makes the Clown (in: Oral Fixation vol. 2)
http://www.4shared.com/file/35638096/e1a1056f/10_10_Costume_Makes_the_Clown.html?s=1
But look at how
I'm taking the make-up off my face
Before I forget who I am now
I'm not here to let you down
But the costume makes the clown
It's just life's anatomy
Don't be so hard
Don't be so hard on this
It's your turn now
Your turn now...
To cheat on me
Shakira - Costume Makes the Clown (in: Oral Fixation vol. 2)
http://www.4shared.com/file/35638096/e1a1056f/10_10_Costume_Makes_the_Clown.html?s=1
6.11.09
Tudo faz sentido agora
"Qualquer pessoa minimamente pedante sabe que o grande segredo da inteligência é cultuar tudo que é incompreensível, fingindo que faz sentido."
Polly in http://tedouumdado.com.br visitado em 06/11/2009 às 21h
Polly in http://tedouumdado.com.br visitado em 06/11/2009 às 21h
31.10.09
This Is It
Eu não chorei. Aquele aperto no peito é mais pesado que o choro. Tinha tudo pra ter um final feliz. É o lembrar tudo que poderia ter sido e que não foi.
O ponto maravilhoso desse documentário é a falta de detalhes pessoais: o diretor tinha como pretensão mostrar, sempre mostrar sem contar, todo o trabalho artístico da turnê e, claro, do próprio Michael. Quem procurou assistir ao filme para ver polêmica e fofocas perdeu tempo e dinheiro. Finalmente alguém conseguiu mostrar o quanto MJ era maior que todos os escândalos, maior que a opinião pública. Era, definitivamente, um músico, um bailarino. Um artista. Sabia exatamente o que estava fazendo. Em termos artísticos, claro.
O ponto maravilhoso desse documentário é a falta de detalhes pessoais: o diretor tinha como pretensão mostrar, sempre mostrar sem contar, todo o trabalho artístico da turnê e, claro, do próprio Michael. Quem procurou assistir ao filme para ver polêmica e fofocas perdeu tempo e dinheiro. Finalmente alguém conseguiu mostrar o quanto MJ era maior que todos os escândalos, maior que a opinião pública. Era, definitivamente, um músico, um bailarino. Um artista. Sabia exatamente o que estava fazendo. Em termos artísticos, claro.
23.10.09
Do conformismo do homem na sociedade de consumo frankfurtiana ou Viva la Revolución
De sorrir por dentro
iluminam-se os céus;
De chorar por dentro
iluminam-se os céus.
Porquanto o respirar atrai outro respirar
e neste o pensamento em nada influi.
Mas do respirar do pensamento,
ou devora-os a penumbra em trevas.
iluminam-se os céus;
De chorar por dentro
iluminam-se os céus.
Porquanto o respirar atrai outro respirar
e neste o pensamento em nada influi.
Mas do respirar do pensamento,
do chorar e do sorrir,
iluminam-se os céusou devora-os a penumbra em trevas.
22.10.09
Er...
Ok, não tenho o que comentar. Ou é demais para a minha capacidade cognitiva, ou coerência não é o ponto forte desse blog.
via: http://tedouumdado.com.br
via: http://tedouumdado.com.br
13.10.09
Liberdade de andar de bermuda por aí.
Às vezes eu acho que o machismo é tão grande e controlador que até o feminismo, o feminino e o femismo se submetem ao poder gramatical e social do masculino.
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